quarta-feira, 30 de setembro de 2009


FULANA NO INFERNO
             classificado no concurso de contos da hama editora, XIV bienal do livro rj  


           Fulana chorava.
            A mãe, há dias no hospital, não tinha mais ninguém para cuidar dela. E a filha, única herdeira, ficava lá, o tempo inteiro, como se estivesse internada junto, impedida de se afastar por um só instante.
Mas não havia nenhuma esperança: a velhinha já estava desenganada pelos médicos e deveria entrar logo em fase terminal.
— Não chore, minha filha! — dizia, com um fio de voz.
Fulana, sentada no sofá ao lado, chorava aos prantos.
A mãe, cheia de sondas enfiadas pelo corpo, passava os dias gemendo. E a filha, varando noites e noites, virando a velha de um lado para o outro:
“Até quando?”, pensava. “Até quando?”
— Minha filha, não chore! Todos nós temos um tempo, e eu já esgotei o meu...
Fulana, debulhada em lágrimas, soluçava. Mas em seu choro desbragado não havia nenhuma tristeza pela morte iminente da mãe. Não. Isso não existia.
“Ódio!”
Ela era obrigada a ficar ali.
“Que ódio!”
E este sentimento vinha das vísceras.
”Tomara que morra logo, a desgraçada!”, praguejava em silêncio, voraz e feroz. Não aguentava mais aquela situação.
“Podre!”, ruminava entredentes. E essa palavra não lhe saía da cabeça. “Podre!”. O cheiro e o estado da velha. Noites maldormidas. Tempo perdido. Dinheiro posto fora.
Fulana destilava veneno.
A herança, que há tanto esperava, começava a ser gasta, antes mesmo de ser sua, naquele inferno de hospital.
E a velha não morria nunca. Triste e agonizante, olhava para a filha, com piedade. Não gemia mais. A única coisa que conseguia, já sem forças, era balbuciar:
— Pobre filha...
Um dia, por motivos econômicos, foram transferidas para um modesto quarto. E a fulana, estirada sobre uma poltrona suja, rasgada e fedendo a mofo, com asco e ódio de estar ali, berrava como uma porca e babava igual a uma vaca, chorando convulsivamente:
“Podre!”
— Pobre filha!
Tempos depois a herança acabava, totalmente consumida nas diárias daquele inferno de hospital.
E a velhinha passou a ocupar um leito, lá embaixo, na enfermaria dos indigentes. A filha, sem ter mais para onde ir, forjou um lugar no canto do corredor e ali passou dias e noites, como bicho acuado, ruminando um ódio mortal.
Certa manhã, ao entrar naquela enfermaria, uma faxineira se assustou com o silêncio da velha. Sentiu, no ar, a presença da morte. Procurou a enfermeira-chefe e, não encontrando, correu a avisar no plantão, olhos arregalados:
— Morreu! A velha morreu!
Imediatamente vieram as enfermeiras, examinaram a mãe, trocaram o soro, enfiaram-lhe os anestésicos e sedativos e saíram sem perceber que, estirada numa cadeira, lá no fundo do corredor, era a filha da mãe quem estava morta. Pobre e podre.




sexta-feira, 25 de setembro de 2009

canção para o fim de tudo

o mundo vai se acabar


um dia ninguém mais vai se entender em meio ao caos


não vai ter água, luz, ar
nem vai ter pra onde correr


o desespero vai tomar conta de todos
e o imponderável cobrirá de absurdos o que ainda restar
depois do último estertor deste planetinha perdido
desaparecido para sempre no cu do infinito


o mundo vai se acabar


antes que aconteça, eu vou me acabar
de tanto viver – e de tanto amar

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

fodástica






fodástica

para denizis

não acredito em cegonha,
duende, papai noel, ano novo.
não acredito em políticos,
em reis, nas leis, nos mitos.

creio em ti, porque em ti me vejo
e me encontro comigo mesmo.
e só assim creio em mim,
pois em mim não minto
o que sinto por ti, quando te vejo,
quando te abraço, quando te beijo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009